Entre tantas, afinal, por que você me escolheu?

22:55:00 Iandê Albuquerque 25 Comments




É estranho ter uma conversa séria depois de tantas outras conversas que te fazem perder muito tempo e vontade de comer. Os gestos se tornam reflexos do outro. Os olhos baixos, o recurso de tentar fugir da situação ao desviar a atenção para qualquer outra coisa ao redor, se rasgando num pedaço de guardanapo, mexendo o canudo em movimentos circulares tentando misturar o gelo e dissolver a agonia, deixando passar a vontade de se levantar da cadeira e ir embora sem pagar a gorjeta pro garçom pra não ter mais respostas. Mas daí você se lembra na possibilidade de perder a pessoa que está diante de você tentando chegar em algum acordo, tentando procurar soluções, encontrar razões e respostas. As pernas travam, a bunda pesa sobre a cadeira e o relógio passa a ser inútil. Tiramos todo o gás do refrigerante, deixamos a cerveja esquentar, admiramos as cutículas das unhas, passamos a mão no cabelo, encolhemos as sobrancelhas ou fazemos cara de não entender nada mesmo entendo só pelo fato de não querer entender. É cedo demais pra dar o braço a torcer, é cedo demais pra ser nocauteado,  pra retirar a guarda, pra recuar, pra pôr a mão no rosto e levantar a bandeirinha branca, é cedo demais pra fugir do embate. Continuamos com a coceira atrás da orelha e dando um certo suspiro no final das frases. Quase cerramos o punho tentando dar explicações, degolamos o pescoço de tanto acenar a cabeça negativamente. É meio estranho ver o quão babaca se tornamos. Acreditamos ser a metade da laranja e que precisamos da outra metade pra se completar. Passamos a ouvir a música com mais intensidade, mergulhamos de cabeça no refrão, estufamos o peito e cantamos com vontade, vivemos procurando essa metade e quando aproximamos as partes, a laranja se torna limão. O amor se torna real quando fazemos careta, quando distorcemos o rosto, levantamos a sobrancelha e fazemos biquinho. Aliás, aquela coisa de que amor é sorrir todos os dias, só se encontra apenas na ficção amorosa das novelas. No final, culpamos o escritor por contar os nossos segredos, culpamos o compositor por ter nos colocado sem permissão no meio de um refrão e por ter trazido a saudade como tom. Santa Afrodite! O amor é muito mais do que aprendemos no colegial, é muito mais do que pensamos que fosse, é muito mais que somente bitoquinhas. Também é beliscãozinho, puxãozinho de orelha, gritinhos no ouvido e discussõezinhas baratas.

Você tem noção do quanto eu sinto sua falta? Da falta que me faz você batendo na porta, enquanto eu fingia não me importar com sua presença do lado de fora, mesmo depois de ter te ligado no inicio da noite perguntando por onde você andava, com medo de ter a certeza de que duas horas depois você estivesse batendo em outra porta, em outro endereço. Medo de te perder. E lá vou eu, fingir que nada aconteceu, abrir a porta com certa cara de desencanto. Botando a saudade debaixo do vestido e calçando a carência pra não sujar o chão da sala, pra que você não perceba que eu te preciso. Abro a porta, resolvo te atender olhando pros seus pés pra não me entregar de bandeja olhando pro teu olhar de ladrão manhoso, que me rouba, me ganha e me deixa estraçalhada na cama sem nenhum direito de te dar conselhos não confiáveis e que nem mesmo eu consigo ouvir, muito menos seguir. Não ouça conselhos de alguém que te diz ser melhor seguir outro caminho, fechar a porta e passar a chave por baixo pra não deixar nenhuma esperança, correr pra bem longe, trocar o perfume pra não me fazer lembrar de você quando um rapaz qualquer passar por mim na estação, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê, porque eu não sei se aguentaria a presença de alguém com o mesmo cheiro de quando te beijo, na poltrona ao meu lado numa sala de cinema. Eu não sei se conseguiria me conter com a passagem de alguém com o mesmo cheiro de quando você me abraça e me pede calma, de quando você jura não voltar mais se eu continuar como eu sou: louca, berrante e descartável, e que vai ficar tudo bem pros dois até que na manhã do outro dia, você se sente meio mal e volta pros meus braços. Não ouça conselhos de quem te indica outros caminhos, outros bares, outros filmes pra que você não consiga me alcançar na esquina, nem me encontrar sozinha no balcãozinho do bar da desilusão brindando minha solidão e embebedando a minha saudade até que a carência suma da minha vida nem que seja em forma de vômito. Eu só quero ter a sensação de que vou te esquecer ao dar descarga depois de um dia inteiro de ressaca. Eu só quero te dar alternativas, sendo que qualquer uma que escolher tem a mesma resposta: eu de braços abertos. É bobagem, você tem muitas outras alternativas: me deixar sozinha é a primeira delas, encontrar outro alguém em meio aos bilhões de seres dispostos a amar no mundo e mulheres de três peitos em Plutão que te disponibilize a sensação de uma espanhola perfeita e completa com três camadas de prazer, mas lamentavelmente eu me lembro. Você, por alguma razão infeliz me escolheu. Por algum motivo me encontrou e não aceitou me largar. Por alguma intuição me tirou na prateleira e se dispôs a me fazer todas as noites, a me preparar todas as manhãs, a me provar todos os próximos dias da sua vida. Não ligou pras minhas gorduras dançantes, nem se importou com o colesterol em excesso que traria pra sua vida. Não seguiu as instruções e mesmo assim me conseguiu queimada, torrada e passada do ponto depois de tantos modos de preparo diferentes de muitos que me esqueceram mofando no forno. Você, por alguma consequência desastrosa, me escolheu. Logo eu, que não sou nenhuma super-mulher, que levo topadas e faço cara feia pro chão, que dou de cara nas paredes e consigo me enxergar, que tenho drama de sobra dentro da bolsa, que me amo descontroladamente e que não tenho três peitos, apenas uma bagagem com defeitos quem nem mesmo os meus pais aguentam, e um coraçãozinho aberto disposto a receber mais uma vítima amadora, depois de tantas marretadas, depois de tantos decretos finais e dezenas de fins trágicos. Em meio a tantos dispostos a encontrarem um peito pra descansar e alguém que dispense a carência, você também tem a alternativa de continuar só com você todos os dias de sua vida e não ter que me aturar, nem a filha da puta da minha TPM, e carregar a paciência pelo menos 12 horas por dia. Claro, também tenho as mesmas alternativas. Mesmo assim meu bem, insistimos em anular as questões, em anular as alternativas reais e aceitar as nossas respostas. Escolher pular pela janela ou correr pela porta dos fundos, não tem jeito, um aguarda a queda do outro de braços abertos pra cuidar por mais alguns dias. Te aguardo na porta dos fundos por mais uma tarde de café e cafuné que só você sabe me trazer. Quero mesmo é me contrariar toda quando conto pra alguém que você não é mais o cara da minha depois de uma discussãozinha barata. Mas não, você é. É da vida, dos sonhos, da realidade. 

Por fim, não ouça conselhos de quem não consegue te encarar quando você volta depois de te jogar pela janela. Não leve a sério a repressão de alguém que abre as portas mais uma vez pra você, nem leve a mal alguém que te empurra, mas emburra se você não insistir abraçar pela segunda vez.  Não considere uma partida definitiva da maior babaca do mundo, que te larga, que te deixa sozinho, que te empurra das escadas só pra ver se você vai insistir, só pra ter a certeza de que você vai voltar e que não vai ser só mais um que fraturou as costelas e saiu correndo pela avenida pedindo socorro e me chamando de louca, desnaturada com características aguda de uma verdadeira assassina. Só pra ter a certeza de que você de fato se interessou pela minha acidez, pelo meu sorriso azedo, pela meu andado bambolê, pelo meu trauma, pela vida sem graça e sem nenhuma garantia, pela minha mania de coreografar o Aserehe e enlouquecer no ritmo ragatanga, pelo meu vicio de desligar a TV e te arrastar pra dormir, pelo meu típico tipinho de continuar procurando alguma coisa até ler o que não devia. De falar até ouvir o que não queria. Por favor, não ouça os conselhos de quem não consegue trancar a porta, muito menos passar a chave por debaixo. 

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25 Comentários:

Perfeito! Impressionante como você nos encanta com seeus textos(crônicas) maravilhoso. Como sempre te digo parabéns muito lindo!

Gleyce Kelly disse...

lindo amei

sempre um lord!

Luana Kimbelly disse...

Gente o que que é isso? Fantástico o texto Iandê Albuquerque....tô sem folego! de tão arrepiante! #lindo #lindo

Stela Mariza disse...

Que lindo Iandê. Muito bom!!

Marcelle Melo disse...

Texto lindo....Muitos suspiros!

Jessica Senna disse...

lindooo maravilhosoo

Eliana Pereira disse...

Amoooooooo seus textos,eu tenho quase todos imprimidos e guardaos numa pasta,você é divino

Renata Gomes disse...

"você também tem a alternativa de continuar só com você todos os dias de sua vida e não ter que me aturar nem filha da puta da minha TPM" Adorei essa parte...

Raquel Cibelle disse...

Perfeito demais, amei!

OOOw, esse Iandê, sempre traduzindo em palavras aqueles sentimentos que consideramos intraduzíveis... rs.. mais um texto perfeito.. amei!

Foi a verdade escancarada na minha frente, sem palavras.

Evandro Brioso disse...

lindo o texto !

Glaubiane Sampaio disse...

Simplesmente amei.

Texto perfeito, tenso e intenso ao mesmo tempo, traduzindo detalhes que uma simples pessoa não consegue descrever! A cada dia me apaixono mais por seus textos, Iandê Albuquerque!

Bha!

Iandê, como eu quero que você consiga compor o seu livro rapidamente, como eu adoro seus textos, quantos argumentos riquíssimos contém, eres sabedor, talentoso, inteligente. Qualidades é o que mais tem, visse?
Gente, por favor, ajudem o nosso amigo escritor a lançar o seu livro o mais breve possível, participando do site vaquinha, é de nosso interesse também. Parabéns Iandê, você é o máximo mesmo! \o/

Marcia Fuzetto disse...

Adorei Poeta...bjss Lindeza...

TUDOOOOOO! Tudo, ainda é pouco pra quem se expressa, nos traduz assim! #dearrepiarcarecadevéi,véi

Sensacional!!!!!!!!!!!!!!!!!!! <3

Mayara Mel disse...

Tô simplesmente apaixonada Parabéns *-*

Ai ai, como eu amo seus textos

Quanta poesia oculta nessa cronica, isso me encanta nas suas criações, escancara os sentimentos, desperta coisas já ocultas talvez até mortas aqui dentro, Parabéns como sempre missão cumprida. Perfeito!

Aline Ortiz disse...

Perfeito, perfeito... simplesmente mais uma vez perfeito!!

Rafaela Guedes disse...

M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!