Boa sorte, meu amor. Crônica de bar.

22:26:00 Iandê Albuquerque 27 Comments



Garçom! Desce aí uma boa dose de desapego - e sem gelo por favor - que é pra não me trazer frio, que é pra não me trazer saudade, que é pra não me trazer vontade, que é pra não me fazer pensar nem fantasiar uma cama vazia e dois corpos grudados sem química, sem magia, sem borboleta no estômago (que inclusive, eu e você sabe bem que nunca existiram, mas era um bom remédio pra fantasiar um coração bobo, pra abrir o dia com um sorriso bom e dar uma despedida de matar o coração). Desce uma porção de risadas, garçom! Descobri que nunca existiram borboletas em meu estômago, era azia. Azia causada por sensações de queimação pela acidez de casos e descasos miseráveis. Despeço o gelo que é pra não me trazer vontade de enforcar casos passados, torturar amores enrolados na cadeira e dilacerar paixões trágicas. Não gosto daquelas luzes meio apagadas no centro do salão, elas remetem a um processo de fim e sem que a gente perceba, apagam de vez da nossa vista, somem como se o amanhã fosse só mais um dia sem esperança, morrem como amores prematuros construídos por pensamentos formados em mentes de desesperados e descontrolados que perderam o guia dos amores caros e cortados do cardápio. Desce um prato suculento e bem temperado com os momentos imprevisíveis de amores que economizaram no prato principal. Justo o prato que esperei por toda minha vida batendo os pés de tanta ansiedade e mordendo os beiços de tanta angústia. Justo o prato que esperei demais, me doei demais, me entreguei como quem se entrega pra qualquer possível amor e se perde por um simples brilho nos olhos. Justo o prato que me trouxe gosto ruim, péssimo sabor, gosto amargo na língua e garganta seca. Faço questão de devolver a não entrega que me levou com a desagradável imensidão de não ser correspondida e uma tempestade que só um simples caso errado pode trazer. Devolvo o falso mergulho, a incompleta intensidade, os fatos que me tornaram uma merda só, e me fizeram entender que um amor não serve pra nada se não for amado, e claro, um amor só é bem amado quando dois sujeitos amam incondicionalmente. Por isso, devolvo o amor condicional, o fraco aperto de mão, o braço jogado em ombros que não me trouxeram equilíbrio ou se quer, serviram de apoio quando precisei. Devolvo os sentimentos zelados pela espera e construídos por saudade chata que se tornou tédio e pela incontrolável sensação de receber de braços abertos só mais um alguém de braços cruzados. Devolvo a incapacidade, a falta de cortesia, os sorrisos escandalosos de amores que temiam ser despidos. Que me perdoem os antigos relacionamentos, casos e descasos, amores ou paixões, devolvo o incompleto. 

Esquece o vinho, garçom! Por que vinho me leva a noites dançantes, mãos grudadas pelo suor e cabeça presa no ombro a ombro. Por que vinho me traz vontade de cantar a música em voz alta e o refrão pode me trazer péssimas lembranças dos dias que se foram e foi só saudade pelo que esperei. Foi só o barulho de alguém subindo as escadas e que desistiu no degrau. Só o zumbido engolido de quem resolve voltar atrás e perder a ideia de bater na mesma porta outra vez. Foi só o ranger da porta que trouxe só mais uma farsa até mim quando meus dias adormeciam no silêncio. Foi só respiração que interage com o sono durante a noite e implora mais um beijo de sobrevivência. Foi só o aconchego da voz. O sussurro que belisca por aproximação. O gemido que saqueia um coração abandonado. A tosse de tuberculose romântica que acorda e se arrasta na madrugada só pra lembrar que estive ali do meu lado. Foram só fodas bem dadas, garrafas de vinho e suores misturados com gemidos sem boas lembranças que grudam na cabeceira pra manhã do outro dia. Foi só o soluço que consola e faz entender que lágrimas te ajudam a abandonar um amor ocasional e crimes passionais de corações partidos e assassinados sem pena. São só memórias póstumas de um amor que se foi com interrogações sem respostas. Foram só amores antigos, amores perdidos. Só mais um dos meus textos argumentativos sem plateia. E foi nesse palco sem plateia que aprendi a engolir choro e muita vela por incertezas de alguns casos e pela transformação que alguns descasos puderam trazer, e no lugar dos aplausos muitas tomates, e no lugar do sorriso muito bico e queixo enrugado, e no meio de tantas rugas e detalhes que denunciavam a ausência do retorno, a pergunta sem resposta, a recusa de abraço desesperado, a batida na porta que não fosse contas a pagar, o telefone que não fosse um operador de telemarketing pra encher o saco, pacotes de seguro de vida, uma voz de fofoca. Uma presença de apresentador de auditório quando quer convencer o público dizia que nos três próximos meses uma promoção exclusiva pra tentar levar a vida sem se tornar um zumbi, um guia de como seguir sem passos ensaiados e um porta retrato com espaço pra um. Uma proposta bem interessante, que recusei. 


Essa tristeza amorosa é só um intervalo entre um amor e outro, desconforto causado pela presença de alguém ou algo que agora se foi, pelo costume de alguma coisa que acabou e que ainda insiste em esfregar na nossa cara o que ficou, é a dor de cotovelo pelo o que pinga e incomoda, é o latejo lá dentro do peito o nada e a indiferença que traz a insonia, só isso. São bobagens que como bagagens aceitamos do outro, e como bobalhões e retardados insistimos em apreciar. Nos disponibilizamos em dar e receber, agradar e agradecer. É coisa boba, nada mais do que café na cama sozinho com piedade de si mesmo por perder o que veio a se tornar do mundo, na verdade, é a pena, é a culpa pela incapacidade de conseguir a permanência do que nunca foi da gente de verdade. Como sujeitos independentes e fielmente solitários, engolimos seco a sensação de falta pela dependência que tivemos de um sujeito totalmente independente que independentemente da partida ou permanência, viemos a aceitar ou pela presença insatisfatória, ou pela partida sem espera e sem avisos. O fato é que aceitamos o amor, alguém pra amar, amamos corretamente alguém errado, ou amamos errado alguém correto. Engarrafamos pobres amores, sufocamos inocentes, participamos de uma matança sem fim. Daí afogamos a mágoa nisso que chamamos de tristeza, que é sentida como uma angústia e é gravemente aumentada por flashes de momentos bons e que nos causaram certa dependência. Passamos a pensar que o outro não pode e nem deve continuar tão bem, que um dia a canoa vai virar, que a corda que pendura uma paixão vai se partir e o outro vai plantar a cara no chão qualquer dia desses, porque afinal, foi a gente que ficou pra trás, com a cara plantada no chão, aguados pela solidão, entrevados pela ausência da concordância e sem saber como crescer ou conjugar o verbo esperar no tempo certo, após o trágico ponto final. Fortalecemos esses momentos com mais detalhes e engrandecemos a sensação de perda. Ligamos as moléculas da saudade. É sufoco na garganta, a indecisão da partida ou permanência da saudade. Mas daí, por surpresa, a tristeza vai embora depois de alguns domingos e se torna uma coisa boba que só custou alguns dias frios e devolveu como troco a liberdade, a independência que um dia, perdemos sem perceber.

Te digo. Dorme no meu ombro, mas não chora, porque não tenho papo pra te fazer esquecer dos desafios e das batalhas que perdemos, porque não consigo desfazer da culpa por apaixonados anônimos e por amantes desorientados que nos tornamos. Não tenho fé suficiente pra enxugar tuas lágrimas e não deixar de pensar em você, e perder meus sonos tranquilos, e apertar o coração por ter que limitar os sentimentos e te desejar boa sorte, te dizer que tudo vai dar certo mesmo que nada esteja certo comigo. Joga tuas pernas em cima das minhas e me prende, mas não me aprisiona, não me faz entender que o melhor que posso ter é o gelo desse momento, não me paralisa nem me leva até os teus olhos porque não aceito viver mais uma vez em cárcere privado sequestrado por só mais um olhar de abandono. Chama pelo meu nome, mas por favor, sem a maciez de uma voz serena, sem a separação das silabas e ênfase no verbos. Não me enche de perguntas porque tenho medo de me perder entre interrogações mal colocadas e agora já não quero, nem aceito me fazer e desfazer numa dicção de uma voz doce pronta pra adormecer qualquer uma vítima. Senta aqui, pode comer biscoitos, dividir o espaço de uma sala pronta pra te receber e me oferecer um pedaço de morango mordido, mas sem promessas de uma vida industrializada, sem uma companhia de comerciais de margarina, sem invasão de um amor comercializado em caixinha, onde é preciso agitar antes de beber, ou usar uma colher pra apanhar o que vem dentro da embalagem, não quero seguir uma vida guiada por atitudes moderadas porque entendi que amor mesmo não precisa de moderação, repartição, colherada ou canudos, me entendo na intensidade e é dela que me faço gente, que me construo ou me destruo de vez em um amor. Me puxa o braço, mas não me resgata que é pra eu não sofrer abandono. Garçom! Suspende o rodizio de amores de terceira porque eu já cansei de encher a barriga sem passar fome e passar o verão trancado no banheiro. Cansei de amores pra cagar junto comigo. Peço amores pro café da manhã que me distanciem das maldades do mundo, que me façam deslizar nas mordidas sentindo gosto do suor, quero amores que me prendam pelo calor, porque é na temperatura do corpo que se conhecemos como ninguém. Por fim, garçom! Embrulha os melhores pensamentos pra viagem. Faço questão de me estender inteiro na calçada dos amadores e bater muito na porta de quem não mede esforços ao se entregar. Por fim, pra eliminar de vez o efeito de ressaca e sensação de desprazer por envolvimento de amores tardios e caóticos, me traz um café quente por favor, que eu encontro um novo amor por aí. 

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27 Comentários:

[...] faz entender que lágrimas te ajudam a abandonar um amor ocasional e crimes passionais de corações partidos e assassinados sem pena. Foram só memórias póstumas de um amor que se foi com interrogações sem respostas[...] Lindo demais, impressionante como você a cada crônica/texto consegue nos encantar ,maravilhoso meus parabéens ! *--*

Simone Laporte disse...

Perfeito é pouco pra descrever o q a gnt sente lendo esse texto meu lindo! Parabéns por essa alma linda q vc possui. Bjooo

Sabe escrever a alma.. estou nesse momento, quero agora viver, me amar intensamente, bjos Poeta.!!!

Vivyane Silva disse...

Sempre sinto arrepios quando Leio . Principalmente quando leio rapidamente todo o texto com os olhos ... Parece que vou sofrer um infarto mas no fim é uma nostalgia. *o* Obrigada por trazer esse sentimento (essa sensação) !

Parabéns Iandê...lindo texto ! Bjs

Essa tristeza amorosa é só um intervalo entre um amor e outro, desconforto causado pela presença de alguém ou algo que agora se foi, pelo costume de alguma coisa que acabou e que ainda insiste em esfregar na nossa cara o que ficou...
Como sujeitos independentes e fielmente solitários, engolimos seco a sensação de falta pela dependência que tivemos de um sujeito totalmente independente que independentemente da partida ou permanência, viemos a aceitar ou pela presença insatisfatória, ou pela partida sem espera e sem avisos. ...O que falar desse texto? Mim fizesse chorar com suas palavras...(Emocionada).Texto maravilhoso amigo!

Nininha Souza disse...

minha canoa já virou só não recebi tomates mais franzir o queixo enruguei a testa mais tive um final feliz!

Maravilhoso, Iandê Albuquerque!!! como sempre, arrasou..

Cleide Dias disse...

Demais meu amigo , demais

Fabiola Milani disse...

Top....cada texto maravilhoso. Superou...Bjos

Essa tristeza amorosa é só um intervalo entre um amor e outro... Mas daí, por surpresa, a tristeza vai embora depois de alguns domingos e se torna uma coisa boba que só custou alguns dias frios e devolveu como troco a liberdade, a independência que um dia, perdemos sem perceber.'' Sensacional!!! Ponto. Demais Iandê, obrigada por nos ajudar a curar as feridas de tantas decepções...

Perfeito como sempre!! Sou fã dos teus textos!!!

Lindoooooooooo....amei.....tá ficando cada dia melhor....bjus...

Simone Viegas disse...

Iandê, como sempre seus textos nos faz repensar e sentir algo diferente. Adoro!! Bjs no seu coração.

Érica Brito disse...

Lindo Iandê adoro seus textos sempre magníficos: parabéns sempre superando um mais lindo q o outro ...

Texto perfeito Iandê! Show!

Wanessa Jenais disse...

Essa tristeza amorosa é só um intervalo entre um amor e outro; Parabeens, texto lindo Iandê Albuquerque .

Rose Katitani disse...

Minhas admirações de sempre pelos seus textos iandê, escreve com facilidade, rico em seus vocabulários e argumentos, coesão, parabéns, visse? PERFEITO!

Renata Gomes disse...

Eita...quase chorei! Lindoo0...

Vicênciei cada frase... :)

Ana Egypto disse...

É Iandê,quando penso q vc deu seu máximo....vem vc e me surpreende com esse lindíssimo texto crônica, q me faz ter a certeza q é vc é great...manda bem demais,me arrepiei ao ler,garoto sem palavras para expressar tanta sensibilidade!! Beijos no seu

O tema da semana. Iandê, todos as poesias escritas verdadeiras obras FARAÔNICAS.
um furacão de emoções lendo esse, MOSTRO!

Camila Karmyn disse...


nossa véii...sem palavras!...muito muito bom ler seus textos.é um privilégio.parabens meu liindo,sempre me encantando. '.'

Parabéns, Iandê! Fantástico, as always

Pedro Renaud disse...

Sou apaixonado pelos teus textos. Fico sempre esperando a notificação e corro logo pra ler. E mais uma vez uma perfeição. Parabéns!

Gisele Rainho disse...

-.em mtas partes me vi, em tantas outras me senti e me entreguei...um texto exato, preciso, cirurgicamente alinhavado dos sentimentos mais contundentes...é o que vai por dentro dos (des)amores...é fiel aos sentimentos que tds temos e mal conseguimos distinguir...

Simplesmente perfeito...Amei cada parte dele, esse texto tem uma entrega de sentimentos que uma grande maioria aqui já viveu....Parabéns, Iandê! Sempre arrasando com seus textos e particularmente esse estás entre os meus favoritos!