Vou de táxi.

19:51:00 Iandê Albuquerque 17 Comments


Me machuco todos os dias por não te deixar de vez. Vou empurrando toda essa bagunça pra algum lugar que me doe tempo e espaço, até que eu me convença que o nosso amor ainda é tão intenso quanto foi, tão grande quanto já foi. 

Me perco todos os dias em uma história mal contada. Em algumas noites, ainda visito esse corpo que morre. Ainda tento entrar nesse peito que já não é abrigo porque me deu pra dormir o terraço ao invés dos braços. Ainda fico pro enterro e mesmo sabendo que ela falece a cada dia, aceito pálido e frio porque ficar pro velório significa mais algumas horas antes que tudo vire pó. Tento colorir o que perdeu a cor com a água da chuva e alimentar esse sentimento de criança perdida. Me pego atormentando os meus sonhos e cruzando os dedos na madrugada pra que esse sentimento cresça como precisamos crescer todos os dias. Cresça como o fermento do bolo, como o pé de feijão no algodão, como o brilho do sol na janela de todas as manhãs. Como tudo aquilo que cresce por alguma razão. Mordo os beiços, os dedos e arranco os fios de cabelo mais amigos, antigos e fies que tenho em mim. Assim mesmo, não consigo me encontrar.

Eu posso ter a companhia de um domingão com a mesma programação tediosa da TV e um quinta do morgado que nunca me deixou só, mas não estou totalmente à vontade pra assumir esse desastre. Não sei se estou dentro ou se estou fora disso. E se isso tudo desmoronar de vez, não sei se será melhor assistir do outro lado da rua enquanto ouço estalos no peito. Ou se será uma boa escolha aceitar a realidade das rachaduras e te perder nos escombros. 

Sofro todos os dias porque quando olho pra trás te vejo com uma bola de ferro amarrada nos pés e fico com medo de sair fora porque não sei se o que tem do lado de fora é menor ou mais pesado que isso. Eu sigo porque tenho medo de voltar atrás e me decepcionar mais uma vez. Sigo porque se parar talvez eu fique pra trás. Continuo porque se desistir perco tudo. Tudo o que já perdi, o que já está perdido e tudo o que nunca ganhei de você. Continuo nessa joça porque não sei qual o pior, se o burro ou a carroça. Não sei se pular fora desse barco seja melhor do que afundar dentro dele. Não sei se é melhor perder a partida jogando ou se a perda é pior da arquibancada ou no banco de reserva. Não sei se atravesso o sinal ou se paro pra você atravessar porque não sei qual a diferença entre ser atropelado ou atropelar, se no final, tudo o que você queria era amar sem ser refém ou se tornar o vilão.

Não sei se corro em Z ou se caminho em linha reta porque não tenho certeza se estou sendo o alvo ou o caçador. Se estou na frente ou atrás. Não sei se paro pra tomar um café na Rua Augusta e te espero, ou se vou pra algum boteco no Leblon e te esqueço. Mas então me lembro que viver sem você já virou rotina, mas não te abandono porque não tenho certeza se voltaria a te procurar pelas ruas ou nos olhares estranhos que eu esbarrasse, ou se você como cão abandonado voltaria a ladrar em minha porta, porque afinal, cão que ladra não morde e abandono com arrependimento não é crime. Você me mata dentro de você.


Me entregar pra cama não vai adiantar porque dessa vida, não aprendi a colocar pra dormir o que me tira o sono. A vida me ensinou que no amor não existe vencedor. Ninguém sai com larga vantagem. Não existe a carta coringa tirada da manga na hora certa. Não existe xeque-mate nesse jogo. Na verdade, acho que o amor nem é um jogo. Não existem jogadores ou lutadores adversários. Ou você luta por amor, ou você entrega os pontos pela falta dele.

Vou pra qualquer lugar que não tenha algo teu. Vou de táxi
 porque a chave do carro tem um chaveiro teu, o banco de carona tem o teu cheiro e no retrovisor, um colar com metade de um coração e uma chave dourada. Quem sabe ainda volto quando você devolver a outra metade e tudo ficar mais completo. Quem sabe você destranca o peito pra mim.

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17 Comentários:

Sueli Sutter disse...

Eu sigo porque tenho medo de voltar atrás e me decepcionar mais uma vez. Sigo porque se parar talvez eu fique pra trás. .............................adorei o texto.

Thássia Alves disse...

Iandê a cada novo texto , você me surpreende!! Parabéns ...E que cada vez mais , você venha ter novas idéias para nos surpreender mais e mais !!! S2

Brunna Araújo disse...

Maravilhoso o texto, me identifiquei bastante com este! curiosa para o próximo, rsrs e parabéns

Paloma Vanessa disse...

amei,lindo texto amigo,parabéns!

[...]Cresça como o fermento do bolo, como o pé de feijão no algodão, como o brilho do sol na janela de todas as manhãs. Como tudo aquilo que cresce por alguma razão.[...] porque afinal, cão que ladra não morde e abandono com arrependimento não é crime [...] Simplesmente lindo, parabéens adoreei *---*

Romário Midon disse...

Seus texto são muito top. Parabéns.

Aline Ortiz disse...

Perfeitamente perfeito

Belíssimo. Como esperado *-* já estava sentindo falta desse jeito de escrever

Maysa Oliveira disse...

perfeitoo <3

Ellen Camilla disse...

Pqp, perfeito *.* a cada texto novo, um mais preferido que o outro kk. Nao sei qual gosto mais Parabens DE NOOOOVO \o

Iandê como sempre....MARAVILHOSO!!!

Foi feito na medida, perfeito pra mim ! Liiiiiiiindo Iandê !Foi feito na medida, perfeito pra mim ! Liiiiiiiindo Iandê !

Gustavo Mendes disse...

texto lindo!

Mariza Santos disse...

EU JÁ ESTAVA A ME PERGUNTAR ...POR ONDE ANDA MEU POETA ? CADÊ SEUS POEMAS QUE RASGA O MEU PEITO E PÔE PARA FORA MINHAS REBELDIA DISFARÇADA EM SORRISOS ? ENTÃO VEM ESSE PRESENTE PARA ENGRANDECER MINHA ALMA E , FAZER MEU CORAÇÃO FICAR LEVE E , EU PODER DORMIR E SONHAR QUE SOU A VÍRGULA ENTRE UMA PALAVRA E OUTRA DE SEUS POEMAS...AGORA SIM , JÁ POSSO DIZER ...GRATIDÃO POR ESSE ALIMENTO , QUE FORALECE MEU ESPÍRITO!

Ana Egypto disse...

Iandê meu menino homem,maravilhoso,fico sem palavras

Que texto lindo!! Me identifiquei em várias partes! Nunca pare de escrever

Jacinta disse...

Nossa! Me descreveu 101%. É preciso levantar a cabeça, olhar pra frente e seguir nossas vidas porque aliás, ele tá seguindo a dele e talvés(muito provavelmente) nem se importe com nada disso, porque afinal de contas ele nunca se deu ao trabalho de demonstrar. Se sentiu, vai morrer sufocado com todas as palavras que não disse. Se faz de durão e sempre no papel de "ah tanto faz como tanto fez". Se ele realmente se importasse, demonstraria. Mas o grande problema foi nunca falar e demonstrar o que realmente sentia.

Autor você tá de parabéns! Te peço por favor não pare de escrever menino. Adoro a forma como é descrita cada linha desses lindos textos. É tão real. Simplesmente amo!