Deixa eu te esquecer.

21:40:00 Iandê Albuquerque 24 Comments

Por favor, para de dizer que quer me ver. Para de me olhar torto porque é difícil me endireitar. Para de me encarar, porque ainda é complicado correr desse olhar medonho. Não tenho certeza pra aonde correr. Se em direção aos teus braços ou aos meus. A insegurança incomoda feito pedra no sapato. Rezo todos os dias pra me livrar desses impulsos e desse amor em processo de cura. Para de falar baixinho porque essa manha ainda me cerca, esse timbre ainda me invade e revira tudo aqui dentro. Ainda lembro de você pela manhã, mas vou tentando esquecer à cada noite e prometo não te incomodar.

Ainda lembro de você espalhado em minha cama, me roubando o travesseiro ou rindo com a marca de lençol no rosto. Ainda te ponho pra dormir em mim e confesso, é bem difícil te acordar e te expulsar daqui. Mas prometo não fazer barulho. Para de passar por aqui sem permissão, porque o teu perfume se espalha pela rua e eu até olho pra esquina. Passe por outra calçada que não seja a minha pele, porque a minha janela avisa sempre quando você faz visita.
 Visite outros botecos porque tem o gosto salgado dos teus lábios nos copos e as tuas digitais não saem da mesa. Ainda tenho você em mim, mas todos os dias, um pouco de você escorre pelo ralo. Vou pedir pro garçom limpar melhor as mesas e os copos, prometo.

Poupe os nossos bancos,  nossas árvores, cadeiras, poltronas e ruas. Te peço que não vá aos mesmos lugares que visitamos nem fale como se as lembranças, fossem as primeiras da tua vida. Te peço pra não se convencer de que nada existiu, sabe? Não desconsidere os nossos sorrisos e lágrimas, abraços e empurrões, apertos de mãos sem acordo. Mas pode me poupar, porque é bem desconfortável lembrar de alguém como estou lembrando de você agora. E contar pros outros o quanto essa pessoa foi pra você pode ser mais desconfortável ainda. Vai por mim, as pessoas não aceitam ouvir muito do que já foi. Porque o que foi, já era. 
Por favor, cara. Para de me enviar mais uma mensagem dizendo que está com saudades e que precisa me ver como se isso significasse alguma coisa pra nós. Para de tentar puxar assunto comigo, me falando sobre como foi o seu final de semana sem mim, ou sobre as novas pessoas que você conheceu. Cê sabe, eu não preciso nem quero saber de você, tudo que eu preciso mesmo, é te esquecer.

Pare de me notar só quando quer, porque existe alguma coisa em teu olhar que me golpeia e é difícil pra caralho se esquivar. Não fale muito de você porque eu nem vou consegui ouvir direito. Para de culpar o destino, porque eu não tenho provas suficiente pra prender a saudade e ela brota da minha pele por mais que eu corra de você. Para de lembrar que a gente desatou as mãos, dispensamos a conchinha e decidimos seguir em estradas diferentes. Eu já convivi com a indecisão, agora já aceitei ter que aceitar você em modo soneca. Para de me ligar, porque eu prefiro esperar que o telefone toque, Juro! Me deixe cansar da tua ausência, dormir pelo cansaço e esperar até que você vire poeira. Um dia eu aprendo a te tragar sem tossir, a cuspir você sem engastar, a varrer você pra fora ao invés de te deixar em baixo do tapete por insistência. Um dia eu golpeio a solidão e te apago da minha vida sem hesitar. Um dia alguém chega e ocupa aquele espaço sem você. E esteriliza a ferida que lajeta você. E finalmente te cala de mim.



Chega de interromper o destino porque eu não mereço perder o meu lugar. Eu não mereço me enfiar em um buraco de onde não saí, entrar em uma viagem que não sei onde vou ficar e carregar bagagens pesadas. Chega de adiar a dor pra amanhã. Tudo que tem pra doer, que doa agora. Tô me desapropriando de você, me expelindo do teu corpo, me escarrando da tua vida. Tô me eliminando das tuas ultimas chamadas e fugindo das tuas conversas casuais. Cansei de servir só quando você acha legal. Cansei de ficar trancado em braços que nem existem, de virar refém de beijos imaginários, de me aplicar em você e não ter efeito algum. Para de buzinar em meus ouvidos. A luz ligada do meu quarto já não significa mais que estou pronta e te esperando. Dispenso a carona. Fico te devendo algumas mordidas e uns gemidos barulhentos. Mando pelo vento. Pago com o tempo.  Prometo. 

Deixa eu te esquecer. E por favor, colabora! Mesmo que você ainda me devore em um vacilo. Mesmo que ainda me decore quando não estou pra canção. Mesmo que e
u ande com um pouco do teu perfume escondido em meu jeans. Um dia você vai ficar no fundo da gaveta. Um dia você some das minhas ligações recentes. Um dia some de mim. Cê vai ver, eu prometo. Para de dizer que me quer porque isso me confunde, garoto. Eu não me responsabilizo se estragar a tua vida e morrer por qualquer coisa que não seja amor. 

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