Pólvora e poesia.

22:14:00 Iandê Albuquerque 11 Comments


Bebi outros beijos. Senti outros cheiros. Aliviei o meu cansaço em outros abraços. Saciei a minha sede de companhia. Caí em tantos braços que nem sei. Me enrosquei em muitas nucas. Os perfumes baratos se tornaram essências do passado e agora, só me enjoam. Escorri em tantas mesas que esqueci as conversas. Cochilei em tantas vozes que nem lembro se fiz pouca promessa ou muita reza. Entrei em tantas vidas que nem lembro das fotos. Assumi relacionamentos - não tão sérios assim -  com amores desentendidos. Casei com paixões que se perderam no ontem. Engravidei de solidão a dois, tive que ter - crua e nua - o amor a mim e criar com muito cuidado o meu eu, até que crescesse e aprendesse a andar sozinho. Crescesse pra vida e pro mundo, não pros outros. Crescesse e aprendesse de uma vez por todas a fumar bem a vida, tragar os momentos e espalhar pro vento o que tô sabendo e aprendendo.

Cuidei do amor a mim até que ele aprendesse a andar sem ralar o peito. Entre o processo de partir do engatinhar pro salto 30, tive que descer degraus e entender que o meu andar era outro. Tive que recuar a cerca que invadia terreno de gente que nem se reconhecia. Tive que descer no meio do caminho e voltar pro meu ninho, pro meu lugar, pro meu canto, pra mim. Tive que partir pra minha cama, pro meu tapete, ao menos a poeira que passeia por aqui eu entendo e conheço bem. As lascas de você que ficou pela casa, nem me incomodam. Só faz barulho a cada dia que eu acordo bem. Só grita toda hora que tranco a porta e saio pra noite. O fone de ouvido e os Beatles me salvam. Me desfiz das lascas em meio ao pó, dos sorrisos que me arrancaram sangue. Tive que recusar sentimento indiferente, cortar a corda que me prendia em sorrisos crus e pálidos. Tive que recusar carona com intenção de cama e barulho de coxas molhadas, porque o meu suor é salgado e sagrado pra ser desperdiçado. No meu corpo, existem curvas que nem mesmo eu conheço. Em mim, existem cantos que ainda não descobri e esconderijos que prefiro não contar. Em minha pele, existem marcas de histórias incompletas e tatuagens que fiz por cima das lendas que me contaram, pra disfarçar o feio. E acho uma puta injustiça que ainda não tenham inventado uma maquiagem pra cobrir o roxo da vida ou algum tom que confunda casos perdidos com a cor de pele. Sou porta dos fundos, porque ainda prezo pro meu refúgio se alguma coisa desabar, e lá fora é muito melhor do que um quarto com internet e filmes repetitivos. (tem vida, mesas e cerveja gelada). Sou um segredo sem fim. O precipício não é o meu limite. Sou uma metrópole de sentimentos a flor da pele e além de mim. Além de mim porque sei ser luz além de sombra.  Me arranco quando os meus desejos me assombram. Me tiro pra fora pra bronzear o meu desespero e me encarar. Os meus pés são o meu guia, a estrada é longa. Mas vou sem bússola ou GPS. Me perder de mim não é tão assustador como dizem. Me encontrar é a melhor parte, meu bem.


Percorri muitas estradas. Atravessei ruas e avenidas mas não parei em nenhuma esquina pra te esperar. Subi muitas escadas. Cheguei rápido em vários destinos. Bati em muitas portas erradas e me escondi na pouca luz pra não parecer querer algo que nunca foi meu e não perder tempo procurando qualquer coisa que some no claro, nas manhãs dos feriados. Fiz greve de amor. Me dispensei desse emprego porque nunca tive uma função considerada, meus projetos faliam e era pouco investimento pra empreender na reciprocidade, no amor mútuo, na troca e na tolerância. Escorri em muitas peles. Bebi outras flores, dores e outros amores. Participei de muitas tragédias - aplaudidas de pé ou vaiadas - . Ser livre também dói um bocadinho.

Deixo a porta aberta. Mas é tanto marginal entrando na vida da gente e roubando nossa rotina pra nada. E torturando o nosso tempo sem pretensão. E estuprando a vida da gente sem pudor. E afastando a gente do mundo. Não adianta! De calça jeans ou de burca, todo mundo leva dedada de um otário que entra e bagunça tudo. Vai embora levando muito da gente sem licença. Rouba muito do que queríamos ser, além de morar por um tempo sem pagar aluguel, claro! Me convenci de que não adiantam convites, nem ligações desesperadas. Ninguém vai bater em minha porta por isso ou por nada, mas acredito que, um dia, alguém bate em mim, me atropela ou cruza o meu caminho.  Se bem que o destino deveria ler o meu horóscopo.

Tô deixando a porta aberta e um bilhete na estante. Cê lê se quiser. Cê chora se tiver vontade. Cê liga se tiver coragem. Tô doando as minhas chaves pra você. Decidi morar em mim porque morar em você e te namorar não é vantagem. Tem goteiras de orgulho e amor amordaçado no porão. Tem sentimento guardado no subsolo. Tem saudade trancada no armário. Tem muitas ligações sem respostas e mensagens nem lidas acumuladas na tua caixa de entrada. Tem pendência de amores inacabados. Tem um saldo remanescente enorme de tudo que cê não conseguiu se desfazer. Tem dívidas acumuladas de casos que sujaram o teu nome e cê não deu a mínima pra limpar ou esquecer de uma vez por todas tais pesadelos. Tem coisa mal acaba aí, e eu não quero pagar por isso. Essa sujeira irrita a pele, sabe? Tô indo ali buscar o que perdi de mim mesmo. Tô indo gastar um tempinho ao meu lado, assistir um filme com um bom papo e me namorar. Vou ali me colocar no colo e me cuidar. Tô assumindo um relacionamento sério comigo mesmo, porque gente interessante entrou em extinção. 

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11 Comentários:

Incrível como me identifiquei! O que falar de um texto desse, que me deixa completamente sem ar... Apaixonante! Encantador! Pode até ser clichê, mais se vc não existisse teria que ser inventado Iandê! Mil vezes parabéns!!

[...]No meu corpo, existem curvas que nem mesmo eu conheço. Em mim, existem cantos que ainda não descobri e esconderijos que prefiro não contar.[...] Perfeitoo amei você Iandê não tenho nem palavras o quanto você é incrível , com seus textos/crônicas nos encantas sempre. Parabéens !! *--*


Ilza Robalo disse...

amo esse autor, ele tem uma sensibilidade cativante para escrever


Vivyane Silva disse...

"Os meus pés são o meu guia , a estrada é longa ."
Texto maravilhoso, apaixonante e impactante... de arrepiar a espinha *-* Parabéns mais uma vez querido Ian..



"Me perder não é tão assustador como dizem. Me encontrar é a melhor parte, meu bem...Ser livre também dói um bocadinho."


"E acho uma puta injustiça que ainda não tenham inventado uma maquiagem pra cobrir o roxo da vida ou algum tom que confunda casos perdidos com a cor de pele."Você sempre será o melhor, meu querido, sempre!


Érica Britto disse...

afff sou completamente apaixonada pelos seu texto muito lindo esse agora ....parabéns


Cada vez mais me surpreendo com os seus textos. Eles são magníficos. Parabéns, Iandê.


Brunna Araújo disse...

Me identifiquei demais com este texto parabéns, Iandê. palmas


Renata Gomes disse...

"Tive que recusar carona com intenção de cama e barulho de coxas molhadas, porque o meu suor é salgado e sagrado pra ser desperdiçado." Iandê Albuquerque vc tá me vendo??? rs PERFEITO!!!


Cleide Dias disse...

aaaaaaaaaaa que deliciaaaaaaaaaaaa [..]E acho uma puta injustiça que ainda não tenham inventado uma maquiagem pra cobrir o roxo da vida[..] amei isso