Eu poderia escrever sobre, você.

15:45:00 Iandê Albuquerque 14 Comments


Eu poderia escrever sobre quando você disse que ficaria e foi embora antes que eu acordasse. Eu poderia escrever sobre o teu medo de se ferir e sobre o receio de machucar. Eu poderia escrever sobre a tua fraqueza em aceitar o amor e sobre a dificuldade em deixar alguém cuidar de você. Sobre a tua indecisão entre começar e terminar antes de tudo. Sobre o dia em que você me deu a mão e prometeu nunca mais soltar, ou sobre o dia, que soltou e não deu a mínima pra conversar sobre suas promessas. Eu poderia escrever sobre as noites em que não dormi direito. Sobre como você se tornou insônia nas minhas noites e sobre todas as manhãs de saudade que acordei sem você.

Poderia escrever sobre os nossos sorrisos de bar ou sobre o que ficou na mesa depois que você foi embora. Sobre todas as vezes que me pediu pra esquecer o cigarro, ou sobre como é tragar a saudade e não conseguir matar a vontade de você. Eu poderia escrever os romances que te encontrei, sobre todos os refrões que te ouvi, sobre todos os tons que te toquei, sobre todos os gostos que te provei, sobre todas as fases, embrulhos baratos e trapos que te aceitei, e sobre todos os sons, ruídos e barulhos que te amei. Eu poderia simplesmente escrever sobre a sensação de ouvir você chamar o meu nome, ou um apelido íntimo que você escolheu pra mim. Ou poderia escrever como é não ouvir tua voz de sono me desejando 'boa noite' antes de dormir. Eu poderia escrever sobre dois desesperados que se perdem ou duas solidões que se encontram. S
obre os amores ilegíveis da vida ou sobre grandes histórias de amores imperfeitos. Eu poderia escrever o quanto você me fez feliz. Sobre os seus abraços que me serviram de abrigo, ou sobre o dia que deixou de ser abrigo e se tornou abandono. Eu poderia escrever sobre todas as cartas que te escrevi, ou sobre tudo o que nossas fotografias significam. Sobre como era sorrir ao teu lado, ou sobre como é fingir um sorriso quando te vejo. Eu poderia escrever sobre a dificuldade em planejar alguma coisa legal pro final de semana, ou sobre a dificuldade de organizar a vida quando não existem mais planos com você. 

Eu poderia escrever sobre o quanto liguei pra você, ou sobre o quanto você nem liga se eu não te ligar. Sobre o esforço de ser tua mesmo que o mundo me apresentasse coisas incríveis e eu me sentisse o suficiente pra ser tão minha. Sobre quando você me pediu em namoro, sobre o meu sorriso a fim de graça ou sobre ser tua da forma mais gratuita e inteira que pudesse existir. Eu poderia escrever sobre o momento em que você pediu licença pra tua vida pra eu passar, sobre quando pediu tempo pro tempo pra me deixar mais com você, sobre quando me deu espaço pra ficar ou sobre como parece ser tão inútil ter tanto espaço e tempo faltando você. Poderia escrever sobre quando abriu as portas do peito pra eu entrar, sobre quando você me puxou pra mais perto de você e sorriu perguntando se eu tinha medo. Eu poderia te escrever só mais uma carta contando como é viver o meu medo que eu tinha. Poderia escrever sobre como é te ter tão distante, e como rir parece ser tão inválido nessas horas. 


Eu poderia escrever um livro sobre todas as cartas que escrevi pra você, ou escrever um manual pra amores legais que se tornam prisão e se perdem em qualquer esquina. Eu poderia escrever como é ser atropelado por você, mesmo quando vou pela calçada. Sobre como é tropeçar em você mesmo quando tento não pensar. Sobre quando parecia ser tão justo te amar ou sobre a injustiça de sentir alguém, quando simplesmente, não queremos sentir. Eu poderia escrever o momento em que você cantou pra mim pela primeira vez, sobre o teu desafino e a tua voz trêmula. Poderia escrever sobre o momento em que a nossa música tocou, poderia até te dizer em quais estações, se fazia sol ou chuva, se estava na praia ou na cama, se o que eu sentir era amor ou a terceira guerra mundial. Eu poderia escrever sobre as suas misturas e sobre todas as reações de você. Sobre sorrir e chorar, sobre comer pipoca com guaraná, sobre beber vinho e se embriagar de amor, sobre beijar e transar ao mesmo tempo. Eu poderia escrever sobre alguma coisa, ou qualquer coisa que a gente sentia tão bem. Sobre o quanto desesperador era te querer e sobre como ficar perto de você me fazia sentir uma coisa que até agora, não sei exatamente o que foi. 


Poderia escrever sobre cair em você, sobre todos os caminhos que escolho pra não te encontrar e sempre alguém aparece pra lembrar de você em forma de cheiro, de jeito, de voz, de gosto, de tom, de timbre, de rosto. Poderia escrever o que penso enquanto tomo um café e visualizo as tuas novas fotos no Instagram. Poderia escrever sobre as perguntas que faço sobre você ou sobre as respostas que dou pra você, mas prefiro não te dizer pra não passar vexame. Sobre a poesia que se tornou você, que tem uma rima legal no final, que só eu conheço mas você há de conhecer. Poderia escrever sobre mergulhar em você, mesmo quando você deixou de ser mar e se tornou lama. Sobre quando você me decifrava devagar pra que as palavras se separassem bastante e a distância entre elas fosse quase infinita. Ou sobre, agora, a distância entre nós. Eu poderia escrever sobre como reajo quando falam de você, sobre quando rola um debate sobre sentir, e surgem dúvidas sobre o amor. Sabe, eu tenho muitas dúvidas também, mas eu poderia escrever sobre o filme que passa em minha cabeça quando algum amigo fala sobre o namoro ou quando alguém chora por não saber como sair de uma situação sem se machucar ou apunhalar sem querer o outro. Poderia escrever sobre como você me vem a cabeça, sobre como uso você como exemplo pra tudo que falo ou penso sobre o amor. Poderia escrever sobre como você se tornou conselhos, alertas de perigo e desejos. Sobre a marca que deixou em mim, feito poesia escrita à caneta em papel crepom. Que borracha nenhuma apaga. E se a água bater, desbota mas não se desfaz.


Eu poderia escrever como é fugir de você, trocar os meus caminhos, me envolver em atalhos, passar por outras estradas ou me refugiar em vielas. Poderia escrever sobre o inevitável, sobre o cansaço de correr em círculos. Por mais que eu mude de endereço, de número ou de tamanho. Por mais que eu mude a minha constelação inteira, troque o meu Marte por Plutão, sempre esbarro em você. Sabe, eu poderia escrever um livro sobre como é esbarrar em alguém que desafiou o mundo pela gente e levou tudo quando venceu o desafio. 


Poderia escrever sobre como nada será o que nós fomos. Sobre como era dormir em você e acordar com você. Sobre como não consigo te odiar e sigo apressando os passos e avançando as casas pra chegar em um lugar que me ajude a te esquecer. Poderia escrever sobre como tento ser menos clichê ao falar de você. Sabe, se alguém perguntasse sobre você, eu não saberia responder direito e poderia escrever sobre tudo o que eu não consegui responder sobre você. Sobre tudo o que fizemos e ainda assim, não consegui escrever. Poderia escrever sobre quando falei de você pela primeira vez pros meus amigos e sobre como eles me achavam fofo e idiota ao mesmo tempo. Poderia escrever sobre o dia em que me sentir literalmente apaixonado por você, sobre como uma janela, o silêncio da noite, as luzes dos carros e o frio se transformam em uma combinação cruel, capaz de trazer você em minha frente e não me permitir te tocar, apenas fixar os olhos em alguma dessas luzes que pareça você e acenar um 'não' com a cabeça pra te recusar.  Eu poderia escrever sobre o dia que vou entender que a vida sem você não é um desastre. Um dia eu escrevo um livro sobre recusar algo que a gente quer muito mas não precisa tanto. 

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