Carta para um sincero amor que se foi.

20:39:00 Iandê Albuquerque 16 Comments



Já deu mais pra nós.

Nossos laços se afrouxaram, nossos passos andam cada vez mais distantes, teu sorriso virou ameaça pra mim e a minha barba te incomoda. O teu olhar tirou todas as certezas que eu tinha e agora me perco em dúvidas e me acumulo em dividas que pago com o tempo. A minha felicidade sem motivos te tira a paciência e a tua conversa demorada me dá sono. Tua pele já não cola mais na minha. Teu beijo não completa o meu querer. Teus braços não sossegam os meus medos. Teu colo reclama que engordei. Teu lençol não é suficiente pra nós. Tua cama faz barulho. Você deixou de achar graça em dormir de boca aberta. Tua vida já não se abre pra mim. Você reclama se te acordei com o beijo que te dei pela manhã. Eu não quero ficar e você já não pergunta quando eu volto. Eu lamento se o teu sono não se despediu de mim. Você me atende com cansaço e eu me disperso com um apresso por você que acaba sempre quando a ligação termina.


Você escolhe o que precisa como se não precisasse mais de mim. Teu corpo se choca ao meu. Você fica presa nas ferragens pelas expectativas que criou e me culpa. Eu te peço desculpas pela desatenção e por ter te bebido sem qualquer moderação. Você lamenta por ter me aceitado sem ler os componentes. Eu releio as tuas contraindicações e concluo que você não é o remédio recomendado pra alguém que procura aliviar a tensão de amores alterados na composição. Você aponta mais um erro em mim. E eu te digo que até te amaria se você não tivesse tantas exigências de fábrica. 


Dá um medo danado em recomeçar e por mais que a gente tenha se esquecido entre as vírgulas que colocamos, será um desafio pontuar um fim e resumir tudo o que vivemos em uma frase. Sei que seguir viagem não será tão fácil quando as bagagens estão abarrotadas de coisas que a gente não consegue se desfazer. Sei que abrir mão de você fará com que eu precise me reinventar. Sei que muito planejamos, mas vou ficar te devendo nossa viagem pra marte, meu bem. Eu vou ficar aqui, sem você. E você vai partir, sem mim. Preciso entender o que é saudade de você porque essa carência que sinto me confunde. Preciso voltar a rotina e sentir a tua ausência. 



Talvez eu tenha que mudar de bar. Aquela mesa bamba lembra você. Aquele shop com pouca cerveja e cheio de espuma lembra você. Aquela marca de batom que grudou no copo, se espalhou por tuas mãos, marcou tantos guardanapos até chegar em minha boca, lembra você. Aquela cadeira vazia e aquele cantinho pra dois, lembra você. Aquela música da Legião Urbana que o músico tocou, foi pra você. Aquele beijo bom e demorado do casal na outra mesa foi em sua homenagem. O sorriso dela se sentindo segura e a cara dele por tê-la, tenho certeza, foi encenação pra lembrar você. O garçom me pergunta por você. E esse silêncio que me obriga a não dar resposta, é seu. O cisco no olho, o aperto no peito e o nó na garganta, também são. Tudo parece se transformar em um teatro com direito às frases que te lembram e um roteiro que parece pertencer a nós. Provavelmente, mudarei também o meu caminho porque aquela sorveteria, lembra você. A garota do caixa pergunta por duas vezes pra ter certeza de que hoje, é apenas um sorvete. Parece não acreditar em mim, mas hoje é. Apenas um, de flocos sem ela, por favor! O banco daquela praça pergunta por você sempre que passo e eu peço pra vida te mandar lembranças sem que essas lembranças assinem por mim. A cafeteria colocou café com você no cardápio e dá até pra beber sem açúcar. Ah, talvez eu mude de faculdade também, é que lá fora lembra você, a espera me faz ter pressa. Olho pra calçada com tanta rapidez que agradeço por não te ver. Talvez mudarei de endereço também porque tenho confundido o carteiro com você. Parece engraçado, eu sei. Talvez eu substitua os amigos em comum por desconhecidos que conversem sobre qualquer coisa que não te lembre. Parece difícil não lembrar quanto tudo se torna lembranças. Se o meu riso é baixo, alguém deduz por quê. Se o meu sorriso é alto, acordo tudo de você que estava adormecido.


Eu, certamente, não estarei presente no teu próximo aniversário, nem na festinha de família, muito menos no próximo brinde na despedida de final de ano. Também não serei o primeiro a te beijar de champanhe quando o próximo ano chegar. Eu justifico a tua ausência, enquanto, de boca cheia e coração vazio, mastigo um salgado tentando dizer: ''Ela não veio, viajou''. E rezo pra que ninguém me pergunte pra onde cê foi. Ainda assim, desejo que você tenha motivos pra sorrir e sonhos pra comemorar. E que , se por acaso saltar uma lembrança do teu bolso ou despertar uma saudade no teu peito, não me ligue, por favor. Prefiro lembrar de você sem direito a essa cortesia de voz trêmula no outro lado da linha. É melhor assim, porque a gente costuma criar chances onde não há, expectativas onde não existe a menor pretensão de acontecer. Acabamos adiando a dor que poderíamos evitar pra amanhã. 

Quando você sair, seja gentil comigo. Apague a luz e feche a porta. Eu troco os CDs de Rock por qualquer outra coisa que não te toque e me arrepie. Pode até ser pagode
. Troco os quadros vintage da sala por um Picasso que não te lembre. Deleto todas as nossas fotos do Instagram pra ninguém sentir pena de nós. Prometo revelar todos os nossos momentos e guardar numa caixinha bonita no canto da gaveta, sem pena, mais com muito lamento. Preciso esquecer o número do teu celular que mesmo deletado da agenda insiste em continuar gravado em minha mente. Preciso esquecer o jeito que você revirava os olhos e o jeito que você sorria olhando pro céu e pro chão e me fazia acreditar mais em você do que em mim. Trocarei o vinho por água. O azeite por pimenta. O jeito de andar como se fosse seu quando na verdade, deixei de ser. Ou nunca fui.

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