Pela última vez.

19:30:00 Iandê Albuquerque 9 Comments



Ei, cê tá acordado?

Preciso te contar uma coisa antes sair da cama, antes de procurar o meu vestido feito louca, de pegar as minhas roupas espalhadas pelo chão, de dar uma olhada rápida no espelho, prender o cabelo com  um  dos hashis que usamos na noite de ontem, antes de tentar esconder a marca do rímel que manchou o teu lençol, de tentar apagar a marca de batom que ficou no teu travesseiro,  de lavar o rosto com  pressa, de jogar a camisinha debaixo da cama, antes de bater a porta e  sair de vez da tua vida. Essa foi a ultima vez. 
Juro.  
Essa foi a última vez que você provou do meu beijo, a ultima noite que  te dei os meus sorrisos como sobremesa e a última manhã que você me viu fugindo desse jeito. Eu não quero me prometer pra você.  Não quero que nossas sensações se transformem  em outros encontros, que nossa pele se acostumem uma a outra, que esse gozo crie laços, que essa transa foda literalmente com a nossa vida. Essa é a ultima vez porque esses teus cafunés viciam  e o teu beijo, muita sede.  Sei que passamos a noite inteira acordados, mas não posso ir embora sem antes  dizer que essa foi a ultima vez que você me colocou no colo, que me viu dormindo sem  medo algum, que ouviu a minha respiração chamar teu nome  quando o filme acabou e esperei um beijo teu. Seria muita cara de pau desligar as luzes e ir embora sem dizer absolutamente nada sobre o que aconteceu entre a gente. Mas não ficarei pro café. Sei que você planejou acordar cedo e me tirar da cama. Sei que prometeu me apresentar algumas bandas novas. Sei que tinham dois filmes legais pra a gente assistir juntos, e que você disse que compraria um vinho tão gostoso quanto o teu beijo. Cê falou isso, eu sei. Mas me desculpa. Fica pra próxima. 

Eu queria te dizer que foi legal. Que não simulei nenhum orgasmo. Que revirei os olhos por você, que gemi por você. Foi tudo verdade.  Sei que gosta de mim porque tem algumas estrelas nos teus olhos, teu cabelo tem cheiro de amor e tua pupila se contrai quando digo que vou embora.  Eu também gosto de você. De verdade. Mas mesmo que os nossos signos combinem, mesmo que a sua mãe goste pra caralho de mim, mesmo que você cozinhe bem, esse meu mundo de perna bamba e coração aflito diz que não daremos certo.  Eu não consigo enxergar um futuro pra nós. Não consigo imaginar a minha calcinha perdida no teu lado da cama, o meu vestido entre os teus casacos, minha escova ao lado da tua, meus discos de Rock ao lado da tua coleção do Caetano. Não consigo imaginar o meu gato correndo do teu cachorro pela casa, os meus  livros feministas ao lado da tua coletânea de filosofia, os meus romances de menina grudados nas tuas revistas fitness. Não. Eu não consigo ver como minhas bolsas ficariam  entre as tuas mochilas de viagem. Não consigo imaginar os meus sapatos ao lado dos teus tênis com meia molhada. Não consigo imaginar a gente. Eu e você. Uma história. Até que eu queria, mas não consigo. 

Não consigo imaginar que a minha vida iria te sufocar.  A minha rotina iria te tirar de mim .  E muito provavelmente  você seria espremido entre esses dias cheios de coisa. Me cobraria explicações. Diria que não aguenta mais distância. Que não suporta mais não receber noticias minhas. Que não aguenta mais os meus atrasos, as minhas faltas, os meus cochilos e a minha sonolência.  E que não aguenta mais assistir aos mesmos filmes. Beber o mesmo vinho. Que não aguenta mais dormir sozinho. E que não aguenta mais essa ausência tamanha que eu não consigo, nunca, completar. Que não aguenta mais ter o meu sorriso breve, o meu beijo rápido, o meu sono pesado. Vai me doer viver assim. Vai me doer te ver assim. Saber que não estou somando porra nenhuma.  Eu não quero dividir nada contigo. E é por isso que preciso ir embora. É por isso que essa precisa ser a última vez. É por isso que não te ligarei mais. 

Te dou um beijo na testa. Com um sorriso nos olhos e um brilho na boca você me pergunta quando voltarei. Lembra de mim e de ontem, e faz questão de dizer que foi bom. Me faz acreditar que fiz o bem e, inexplicavelmente me faz sentir apaixonada.  Eu tento ir e você me puxa, me prende, toma meu corpo, rouba meu beijo, sequestra meu coração.  

Penso que algumas horas a mais não vai doer. Um cuidado barato e um carinho não fará divida. Por esses sorrisos eu fico. Mas só por mais uma última vez. 

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