Receita pra te esquecer.

20:27:00 Iandê Albuquerque 13 Comments

 
Dia desses, eu tentei te esquecer. Tentei queimar nossas fotos, rasgar nossas cartas e apagar todas as nossas declarações da internet. Eu sabia que, mesmo tentando apagar tudo que lembra você não estaria completamente livre. Pode ser que a gente se encontre num desses finais de semana de sol, eu com óculos escuros e você com fone no ouvido ouvindo Radiohead, e talvez, consiga te dizer mais do que um simples e rápido ''oi''. Talvez eu embargue algumas palavras pra saber se tá tudo bem com você. Se você deixou de colocar a toalha molhada em cima da cama e se ainda deixa a tampa da privada levantada. Talvez eu consiga te contar porque você deixou de fazer tanto sentido pra mim. Talvez nesse silêncio que se encaixa entre nossas frases soltas e assuntos sem conexão, eu entenda, de uma vez por todas, porque não deu certo pra gente. Pode ser que um dia a gente se esbarre naquele barzinho e aquela mesa no cantinho esquerdo não faça mais sentido pra nós. Pode ser que a gente se encontre na fila do banco, no mercado, na boate ou na fila de um opem bar e a gente nem se reconheça como personagens de uma dessas histórias cheias de amor, mas que, por alguma ou nenhuma razão, acabou. 

Não se assuste, pessoa. Eu já li milhares de receitas pra te esquecer. Mas é que tudo traz você. Tudo acrescenta uma grama, uma gota, uma colher de chá desses nossos momentos loucos e dessas lembranças boas. No final, o gosto é o mesmo e o cheiro também. Beijo doce com cheiro de Jaguar. Sinto falta do teu sorriso demente e dos teus lábios dormentes. Do brilho dos teus olhos ao entrelaçar meus dedos aos teus. Lembro de você ao passar o teu programa favorito na TV. Ao ver o espaço da tua escova de dentes ao lado da minha. Ao ver os dois ganchos no banheiro que acomodavam duas toalhas. Ao me olhar no espelho que você disputava comigo. Um quadro na sala que despencou na tua cabeça. Alguns cabides sem roupas e um espaço estreito entre as minhas calças no armário. Lembro de você quando peço pizza de quatro queijos e sobra uma fatia, quando uso a camisa xadrez que você gostava, quando paro em cada estação de rádio, quando esqueço de colocar açúcar no café, quanto saio com pressa e tranco a porta, quando acordo e vejo a cama sem você. Tenho dedicado finais de semanas inteiros pra te esquecer. Mas é que a segunda-feira também lembra você. Lembra o ''bom dia'' em tom de preguiça, o estalo do beijo no rosto, teu peito em minhas costas, teu braços em meus seios.  Sinto fome dos teus beijos, das maçãs do teu rosto, de você por inteiro. 

O que me dá raiva não é o que você fez de errado, nem os seus berros, nem os seus defeitos, nem a falta de atenção, nem os gastos do mês, nem o atraso do condomínio, nem o filme repetido de sábado a noite, a programação de domingo, seus pais, meus pais, meus amigos sem noção, suas amigas idiotas, o vizinho chato do 402, o prato sujo na pia, a garrafa vazia, cinzas de cigarro no chão da varanda, a calcinha pendurada no chuveiro,  teus CDs espalhados pela sala, meus livros pela cozinha, nem todas essas coisas que dão vontade de desistir da gente. O que me dá raiva é a falta de tudo isso. É a falta dos teus olhos castanhos escuros.  Dos teus cabelos vezes curto, vezes longo, vezes ao lado do meu. Do teu jeito de dormir como quem me pede em silencio pra não te deixar, do teu jeito de acordar como quem me pede pra não ir. O que me dá raiva é sentir saudade de você e de tudo que se transformou em você, de tudo que nunca deixará de ser, de tudo que sempre será. De não te ver lavando as louças cantando Caetano,  de ver a pia empilhada de louças sem voz. De não te ver em meu sofá, de apagar a luz e não te encontrar no tato ao meu lado. O que me dá raiva são os seus beijos e o que eu tinha sonhado pra nós ao prová-los. É sentir falta da tua cara rosada, dos teus abraços calorosos,  das noites de suor e mordidas. Sinto raiva do nosso amor a capela, do teu cabelo dourado, do teu olhar apontando pro lado esquerdo, do teu beijo cheio de poesia, do teu sorriso tênue, dos teus pés 35, dos teus espirros matinais, do cheiro atrás da orelha. Sinto raiva de lembrar quando pus o olho em você e não quis mais tirar e agora te perdi. Do lenço xadrez enrolado ao pescoço, do livro do Gabito Nunes nas mãos. Sinto raiva de viajar sozinho pra onde deveria te levar comigo, de ler  a Tati Bernardi ou de ouvir o Nando Reis falar de você.  Sinto raiva de não jogar as minhas pernas sobre as tuas. De ninguém conseguir estreitar essa cama grande. De ninguém ser capaz de me fazer sorrir por, pelo menos, três meses. Caralho! Ninguém parece ser tão completo como você.

Eu digo que não vou lembrar de você como se fosse simples esquecer tudo. O chato é que o nosso amor não foi um 
quadro-negro e os nossos momentos passam longe de ser só giz. Essa nossa historinha cheia de idas-e-vindas, melodramas, morfina e pouca fé tava mais pra uma folha sem linhas e sem destinos que rabiscamos em caneta, e agora, esfregamos pra apagar. Você foi embora, mas a tua assinatura ficou aqui, grudada. A verdade é que, não vou te esquecer, mas posso te pôr pra dormir pro'cê não me tirar o sono sempre. Já que não consigo te esquecer, prometo te adormecer em mim e não te acordar nunca mais.

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