O que ficou de você.

19:23:00 Iandê Albuquerque 12 Comments

Sinto que tudo em você ainda me pertence. Talvez você namore, se case, comemore inúmeras datas especiais, convites de sexta-feira a noite e finalmente tenha filhos e um cachorro. Só quero que saiba que você pode tentar reencontrar o que ficou de mim  em você, mas nunca me encontrará. Talvez em algum detalhe você se lembre de mim, mas não será eu.  Se isso dói em você, não sei, mas dói em mim só em pensar que eu posso encontrar alguém melhor que você, mas não o mesmo. Dói saber que você pode até conhecer alguém melhor que eu, mas ninguém além de mim conhecerá o que você foi comigo.


Ninguém conhecerá o sinal atrás da sua orelha esquerda, nem descobrirá que você sente cócegas no meio da palma da mão. Ninguém notará que o seu ''eu te amo'' na frente das pessoas sai trêmulo, que você coça o nariz quando está nervoso. Ninguém descobrirá que a tua sobrancelha treme quando cê mente, que seus caninos têm marcas de flúor. Ninguém passará 12 horas numa fila pra comprar o seu livro preferido e conseguir o autógrafo do autor. Ninguém ficará tanto tempo pra comprar os primeiros ingressos do show dos Los Hermanos e te fazer uma surpresa num domingo de manhã. Ninguém deixará de ir a uma entrevista de emprego porque você ficou doente, nem ficará uma tarde de sábado com sua mãe enquanto você não chega do trabalho porque ela teve um crise de asma. Ninguém notará que o teu jeito de sorrir repuxa os lábios e faz a tua testa enrugar, nem descobrirá o teu tique nervoso quando tenta soltar piscadelas e acaba se confundindo todo. Quero te dizer que, o que ficou de você é espontâneo, tudo que ficou comigo ficou porque existiu uma necessidade pra ficar, tudo ficou pra ser lembrado mesmo quando eu não tenha vontade de lembrar, e nada nem ninguém sentirá o que você sentiu comigo e me fez sentir um dia. O que seria dos momentos se não fossem eternizados, o que seria da partida se não deixassem nada nem levassem, ao menos, um pouco da gente?



O que ficou de você ocupa o lugar vazio da mesa, se esparrama pelo sofá e ocupa a minha cama todas as noites. E quando eu acordo o teu ''bom dia'' ecoa pelo quarto, quando me deito o teu cafuné acaricia minha nuca e os teus beijos chegam a todo hora. Quando ligo a TV o teu programa preferido passa, quando desligo a TV a saudade bate na porta. Quando penso em te ligar lembro que é melhor evitar levar um não, melhor evitar confundir as coisas e insistir  no que já passou e não tem a menor pretensão de acontecer de novo. Quando penso em pretensão acabo te querendo, quando te quero, acabo me perdendo, quando me perco, percebo que são só lembranças.  E aqui, eu guardo - e muito bem guardado, todas as tuas manias e teus cuidados, teus sorrisos e tuas mordidas, teus olhos e também a tua saída

Quando chove lembro que você se molhava todo com uma preocupação boba de que não queria me ver com gripe outra vez quando dividimos  o guarda-chuva. Por aqui, ficou o vazio dos teus sapatos jogados no canto do quarto, o convite não mais respondido de que eu precisava te ver, uma mensagem dizendo que era o fim e uma conversa numa sexta-feira a noite lamentando por não podermos mais continuar. Ficou o teu olhar de adeus, a minha compreensão - não tão compreendida - de aceitar que você estava  realmente indo. Ficou aquele abraço frio, o nó na garganta quase pedindo pro'cê não ir. Ficou também a última ligação que precisei ignorar, ficou a tua insistência em falar de novo comigo, ficou a tua voz pedindo desculpas por tudo e a minha quase te pedindo pra ficar e te propondo tentar outra vez, mas tive que dizer: tudo bem, tô indo também. Ficou a tua última pergunta sugerindo que nos tornássemos amigos, a minha resposta não dada e o silêncio que eu preferi manter. Ficou o desejo de te procurar como várias outras vezes procurei, mas dessa vez eu preferi não me repetir. Você não veio e eu não fui, e essa vontade de se ver que a gente preferiu evitar, ficou também.


Cheguei a pensar em como eu iria me acostumar com a tua ausência, me perguntei até quando você ficaria aqui mesmo não estando mais, e o que fazer pra me acostumar sem você. E as músicas que cantávamos juntos, e os discos que escolhíamos juntos na Cultura. E o que eu digo se o teu dentista me ligar? E o que eu falo pra sua mãe se ela me procurar? E como eu explico pros nossos amigos que hoje eu vou sair só e que, na verdade, nunca te pertenci? E o que eu falo se me perguntarem por você, o que eu invento pra te esconder e o que eu digo pra ninguém perceber que apesar da distância você ainda está aqui, bem perto?

E quando você se preocupava com o meu silêncio, quando me questionava se tinha feito algo de errado porque você às vezes falava merda e nem percebia. As mensagens simples que você enviava perguntando se a aula de economia tinha encerrado porque você precisava me ligar e falar sobre um restaurante novo que cê encontrou na internet e que a gente precisava ir. E toda manhã você estava ali, mesmo não ocupando a minha cama ocupava a minha caixa de mensagens. E toda tarde você aparecia e mesmo não me olhando nos olhos, sabia como os meus desejavam te ver naquele momento.  O que ficou de você me dá um medo danado só em pensar que eu posso te encontrar com outro alguém e ter que fingir que tá tudo bem, que tá tudo certo. Preciso te dizer que, de todas as coisas que você deixou, a pior e não menos dolorosa, é aquele restinho de sentimento no fundo da gaveta, coberto por saudade abarrotada, é quela lembrança debaixo de tanto entulho que eu fingia não me importar mais, aquele restinho de amor empoeirado que eu nem sabia que existia. O foda é quando o amor resolve ficar mesmo quando tudo tem ido. 

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